A alquimia da feiticeira: um convite à transformação
- Graciele Maria Welter
- há 2 horas
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"Impossível devolver à linha ao novelo depois que a consciência já teceu novos caminho"
Ana Jácomo
Na psicologia profunda, a Feiticeira é um arquétipo que emerge sempre que a alma recusa a prisão da Persona. Ela representa a mulher que atravessa os limites da convenção e toca diretamente a energia da Sombra, tanto a sua quanto a do outro. Por isso, sua presença é ao mesmo tempo irresistível e perigosa: não aceita máscaras.

A Persona, essa máscara social, é o que mantém muitos vínculos de pé: “sou o homem de família”, “sou a esposa respeitável”. Mas diante da Feiticeira, a Persona se desfaz. Ela enxerga o que está atrás do véu e, ao fazê-lo, coloca o outro diante daquilo que ele não queria reconhecer em si: o desejo que reprimiu, a raiva que não admite, a contradição entre o que mostra e o que é.
A Feiticeira não é inimiga da sombra: ela dialoga com ela. Por isso, é um convite à tranformação e, homens que a encontram experimentam simultaneamente desejo e medo, fascínio e ódio. Ela desperta no outro aquilo que ele não tem coragem de viver, e, ao fazer isso, o obriga a confrontar a própria divisão interna. Assim, ela se torna projeção do inconsciente masculino: é vista como “tentação, perigo, loucura”, quando na verdade é apenas o espelho daquilo que se recusa em si mesmo.
No plano arquetípico, a Feiticeira está ligada à Anima transformadora. Ela surge para confrontar o homem com o seu feminino interno, não aquele domesticado e conveniente, mas o feminino erótico, selvagem e intuitivo. Se ele aceita o chamado, amadurece; se recusa, a demoniza e pode entrar em declínio ou estagnação. Por isso, tantas vezes é acusada, perseguida, ou transformada em bode expiatório.

No fundo, a Feiticeira serve ao Self, ao núcleo da psique que pede inteireza. Sua função não é agradar nem preservar a ordem, mas quebrar ilusões. Rasga fachadas e expõe feridas porque só assim a transformação se torna possível, pois ela não vem para manter, mas para iniciar. Não é companhia confortável, mas força iniciática.
A "Feiticeira", nesse sentido, é reconhecer-se como mulher que desperta:
– Desperta o desejo que estava adormecido;
– Desperta a sombra que estava escondida;
– Desperta a alma que estava presa à máscara;
É por isso que sua presença não passa despercebida: para uns, é fascínio; para outros, ameaça. Mas, em ambos os casos, é a verdade. E a verdade, quando emerge, nunca é neutra ela transforma.





