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O preço de negar a alma: uma reflexão


"Há um olhar que sabe discernir o certo do errado e o errado do certo.

Há um olhar que enxerga quando a obediência significa desrespeito e a desobediência representa respeito.

Há um olhar que reconhece os curtos caminhos longos e os longos caminhos curtos.

Há um olhar que desnuda, que não hesita em afirmar que existem fidelidades perversas e traições de grande lealdade.

Este olhar é o da alma."

Nilton Bonder


A história de Charles (atual rei da Inglaterra) e Camilla Parker Bowles pode ter parecido, a primeira vista, um romance complicado, cheio de escândalos e paixões. Porém, se olharmos com mais profundidade, ele fala menos de um amor proibido e mais de algo essencial: o preço que se paga quando não se ouve a própria alma. Por esse motivo convido à uma reflexão:

Segundo a série The Crown e diversos relatos históricos, quando Charles conheceu Camilla, apaixonou-se de forma imediata e profunda. Ele sabia em sua consciência mais intima, que era ela. No entanto, o ambiente em que vivia não permitia esse amor. Pessoas ao seu redor, considerando-a inadequada para o futuro rei, agiram nos bastidores: organizaram o casamento de Camilla com outro homem e enviaram Charles para longe, em uma missão militar. A esperança era de que o tempo e a distância fossem suficientes para apagar esse vínculo.

Mas o que é da alma não se apaga. Camilla seguiu com sua vida, Charles retornou à Inglaterra, e mais tarde conheceu Diana. O casamento entre eles parecia perfeito aos olhos do mundo: jovem, bela, aristocrata, capaz de gerar herdeiros e manter a imagem da monarquia. Porém, dentro do casamento, havia um vazio. Como a própria Diana disse certa vez: “esse casamento sempre teve três pessoas”.

alma e relacionamento
Quantas vezes sufocamos desejos legítimos em nome do que “parece certo”?

A dor que se seguiu foi intensa. Diana buscava no marido um amor que ele não tinha para oferecer, ela queria que fosse possível viver o casamento com inteireza. Tentou suprir essa ausência em outros lugares, mergulhando em relações paralelas, em transtornos alimentares e em uma solidão que nunca deixou de acompanhá-la. Charles, por sua vez, dividia-se entre o peso da coroa e o desejo da alma, e Camilla permaneceu como presença constante, mesmo quando parecia "distante".

Essa história, que marcou não apenas a vida privada da família real, mas também a memória coletiva, mostra como a negação da alma cobra um preço. O sofrimento não ficou restrito a Charles e Camilla, atingiu Diana, seus filhos, e reverberou para além das paredes da realeza.

Charles não sustentou, naquele momento, o amor que reconheceu desde o início. Mostrou fragilidade diante das convenções e rendição aos pesos das tradições. E quantos de nós também não fazemos o mesmo? Quantas vezes sufocamos desejos legítimos em nome do que “parece certo”? Quantas vezes aceitamos papéis que nos são impostos, enquanto dentro de nós uma voz insiste em dizer: “isso não é você”?

As estruturas sociais têm o seu valor, mas quando se tornam prisão, silenciam a alma. E a alma, quando silenciada, não desaparece, ela encontra formas de cobrar sua verdade, seja em doenças, vazios, repetições ou relações fracassadas.

O destino acabou unindo Charles e Camilla, mas apenas depois de décadas de sofrimento. E talvez seja justamente isso o mais revelador: a vida sempre encontra um jeito de trazer à tona aquilo que foi negado. A questão é: quanto tempo escolhemos suportar a dor até nos permitirmos viver o que já sabíamos desde o início?



Graciele Maria Welter

Psicóloga Clínica

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